(palestras e conferências

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Projeto Com a Palavra o Escritor

Quero inicialmente agradecer as palavras generosas de Myriam Fraga e manifestar minha satisfação por estar aqui na Fundação Casa de Jorge Amado, dando inicio, neste ano de 2005, ao projeto Com a palavra o Escritor.
Estar aqui se reveste de enorme responsabilidade, não só porque neste país não é com muita freqüência que se franqueia a palavra aos escritores, mas, principalmente, porque a palavra é a argamassa da nossa construção, a matéria-prima do nosso ofício, o oficio de escrever. Quem tem a palavra, portanto, tem enorme responsabilidade, não por tê-la, mas pelo uso que vai fazer dela.

Eu amo as palavras, e, ainda criança, descobri que ao juntá-las era possível recriar o mundo. Descobri isso na biblioteca de meu pai.

Meu pai não tinha muito tempo para ler, envolvido com a dura tarefa de sustentar sua família, mas desde que me entendi por gente havia livros lá em casa. E foi num quarto cheio deles que descobri o poder mágico que adquira as palavras quando se transformavam em histórias. Meu pai gostava de romances policiais, mas comprava clássicos e coleções inteiras de autores brasileiros e portugueses, que às vezes cabia a mim folhear pela primeira vez. Por conta disso, minha iniciação literária não foi das mais comuns. Diferente dos jovens da minha época, cuja iniciação literária vinha invariavelmente com Jorge Amado, a minha se deu com José de Alencar, Eça de Queiroz, Machado de Assis, Érico Veríssimo e Humberto de Campos, cronista esquecido, cuja obra completa em luxuosa encadernação grená eu li inteirinha.

Jorge Amado eu conheci depois, e suas histórias encantaram minha adolescência, pela força da palavra, pela força do sexo. Mas esses livros eu não os encontrava na biblioteca de meu pai. A encantadora Lívia, a deliciosa Gabriella, a fogosa Dona Flor eu tive de buscar nas bibliotecas. E à noite, na sala em que a família inteira encantava-se com a imagem-padrão de uma caixa luminosa, recém introduzida nos lares baianos, o menino desinteressado da novidade tecnológica tornava seu ensimesmar uma apreensão, somente amainada por ter nas mãos o exemplar de Terras do Fim ou de Mar Morto leitura recomendada, fonte de instrução e conhecimento. Mas nas tardes tórridas da Bahia, quando a família distribuía-se pelos cantos na azafama dos afazeres diários, o menino, agora solitário, tinha novamente um exemplar de Jorge nas mãos. E Tereza Batista era igual fonte de instrução e conhecimento, mas com o poder adicional de despertar a conscupiência e fazer da imaginação um corcel que levava ao prazer. E, assim, ao tempo em que enchia de fantasia o sacio que o desejo impõe, Jorge Amado espertava o gosto pela palavra, pela frase posta no papel, insigne e orgulhosa, fazendo a imaginação cavalgar outro potro arredio, o do propósito de ser escritor.

Eu sabia que seria escritor, mas muito fiz, antes de sê-lo. Um texto de Marx me fez escolher o Curso de Ciências Econômicas e tornei-me economista. Logo depois, professor da Ufba e jornalista, com uma coluna dominical no Jornal A Tarde. Ainda estudante de economia, fiz meu primeiro estágio na Secretária de Planejamento e de lá não mais me afastei exercendo várias funções, estagiário, técnico, gerente, assessor, até tornar-me diretor da Fundação CPE e mais tarde Secretário de Planejamento. Mas essa história eu vou deixar para contar com mais detalhes, quando da minha posse na Academia de Letras da Bahia.

Por hora, quero dizer que, embora não passasse um dia sem juntar as letras no papel, a literatura só veio para mim muito depois.

Publiquei meu primeiro conto “ a Vingança da Prostituta Japonesa, aos 35 anos, na Revista da Bahia, cujo editor era Gustavo Falcón. Aos 37, achei que estava pronto e comecei a escrever meu primeiro romance. Antes, levei muito tempo para decidir sobre o que desejava escrever. Acho que ainda não sei, mas tenho pistas . Por isso vou falar um pouco sobre minha literatura e talvez assim vocês percebam qual é meu tema recorrente.

Como já disse aos senhores, havia muitos livros na casa de meu pai e ele, gostava e gosta especialmente de histórias policiais e de terror. Assim, minha adolescência foi povoada de seres fantásticos. A esses seres fantásticos devo grande parte do meu gosto pela literatura. Desde cedo me encantei com as brochuras vermelhas que traziam as histórias de Serlock Holmes: Um Estudo em Vermelho, O Cão dos Baskerville, e com Edgar Alan Poe e seus contos fantásticos. o Crime da Rua Morgue, O Escaravelho de Ouro e muitos outros. Mas era a literatura gótica que me seduzia e, quando encontrei Carmilla numa velha biblioteca, foi amor à primeira vista. Era uma edição antiga e trazia o nome do autor em letras góticas: Joseph Sheridan Le Fanu. Parece que Joseph detes¬tava seu sobrenome feminino, mas deu vida a duas mulheres impressionantes e muito avançados para sua época. Tratava-se de Mircalla e Carmilla, dois personagens que, já na composição anagramática dos nomes, encarnavam com precisão a dualidade feminina, e, em pleno século XIX, em pleno reacionarismo vitoriano, insinuavam uma relação lesbiana insuspeitável na literatura daquele tempo. Com Carmilla, comecei a perceber que os autores góticos eram muito mais que meros construtores de histórias de terror: num tempo em que sexo e religião eram tabus que não podiam estar nos livros familiares, os autores góticos usavam suas histórias fantásticas para com elas discutir todos os temas proibidos.

Frankenstein, o incrível personagem que Mary Shelley era um belo exemplo. Mary criou-o por causa de uma aposta com Lord Byron e seu marido o poeta Paul Shelley: “Cada um de nós vai escrever uma estória de fantasmas". Frankenstein, não era uma história de terror, mas uma fábula sobre a capacidade do homem criar vida, de tornar-se Deus. Frankenstein antecipou em 150 anos a discussão que hoje, com o advento da clonagem, é mais atual que nunca. Atual também é a saga do Dr. Jekil e de Mr.Hyde, de Stevenson, que desvenda a natureza dual do homem e que talvez esteja antecipando um futuro não muito distante quando, quem sabe, a química, com sua insuportável presunção tentará, provavelmente sem sucesso, separar o bem e o mal que existe em cada um de nós. Pois bem, esses livros me encantavam, mas quando li o Drácula de Bram Stoker fiquei perplexo. O personagem criado pelo irlandês era fascinante - uma perfeita encarnação ficcional da ânsia do homem pela imortalidade - e seu habitat era um romance que driblava o reacionarismo moral do século XIX, colocando nas virtuosas casas familiares, sexo disfarçado em terror. Imaginem, senhores, as donzelas vitorianas, com suas saias abaixo dos tornozelos, com seus pescoços encobertos, com os colos inteiramente cobertos tendo nas mãos a história de um herói iconoclasta que as descobre inteiramente e morde seus pescoços com lábios molhados que sugam o sangue que a sociedade quer preservar. A metáfora de Stoker é fenomenal. O beijo de Drácula é sexo puro e há passagens na bela história de Jonathan Harker que faria corar Henry Miller, ou Charles Bukovisk. Nenhum deles seria capaz de imaginar a cena sensual e libidinosa em que as concubinas de Drácula chupam e lambem um pobre bebê, numa cena que Sergio Augusto comparou a um conúbio pedófilo. Já o encontro das três vampiras com Jonathan se constitui uma cena de orgia impensável naquela época. As concubinas de Drácula encurralam o pobre Harker, e comentam ávidas: “ Ele é jovem e forte. Seus beijos chegarão para todos nós.” Isso senhores numa época de puritanismo exacerbado e de intolerância capaz de levar as masmorras. Essas vampiras luxuriosas darão origem ao vocábulo “ vamp”, que ainda hoje define as mulheres ávidas que anseiam pelo sangue quente dos seus machos. Aliás, Coppolla, em seu belíssimo filme sobre Drácula, percebe a intenção e Stocker e o faz transbordar de sensualidade. O livro de Bram Stocker coloca o sexo nas mesas vitorianas e, filosoficamente, abre a discussão em torno da morte e da vontade de não morrer. Drácula é o símbolo da busca pela imortalidade.

Pois bem, apaixonei-me por essa história, que Harold Blomm colocar no Cânone Ocidental entre os melhores livros já escritos, e vinte anos depois da minha apresentação aos vampiros, resolvi lê-lo pela segunda vez. Então, se passou comigo o que, provavelmente, aconteceu com Bram Stocker ao ler Carmilla de Sheridan Le Fanu. Percebi que havia no romance de Stocker um personagem tão fantástico e surpreendente quanto o Conde Drácula.

E assim, tomando Renfield de empréstimo a Bram Stocker, resolvi escrever meu primeiro romance, cujo objetivo era homenagear os autores góticos e discutir com eles os mesmos temas universais: o amor, o sexo, a imortalidade...

E escrevi “ O Afilhado de Gabo “ , onde os autores góticos passeiam sem cerimônia e cujo título é uma referencia explicita a Garcia Márquez, um autor contemporâneo criador de personagens fantásticos e que me parecia profundamente gótico.

Meu livro foi muito bem recebido pela critica, mas teve um vicio de origem.
É que os críticos e resenhistas brasileiros são, todos eles, dotados de uma ânsia classificatória atávica. E qualquer nova incursão no mundo da palavra exige de imediato um rótulo. Assim os novos escritores brasileiros são neo-isso ou neo-aquilo, desta ou daquelas da geração, são regionalistas ou filhos de Zé Rubem, adeptos da literatura policial ou da temática urbana e por aí vai. Esses rótulos são sempre reducionistas e terminam por obscurecer o real valor da literatura brasileira.

Atualmente se fala muito, por exemplo, da literatura policial brasileira. Eu nem sei se há uma literatura policial brasileira. Aliás, o Wilson Martins dizia que os brasileiros não têm a "cabeça detetivesca", assim como se diz que os franceses não têm a "cabeça épica". Muitos críticos torcem a cabeça para qualquer livro que cuja trama apresente um crime, tachando-os imediatamente de literatura policial. Mas esquecem-se que grandes escritores usaram o crime apenas como pretexto para tratar de seus temas prediletos e nem por isso fizeram literatura policial. Não haveria Crime e Castigo, sem a machadada com que Raskolnikov tira a vida da velha avarenta, tampouco a saga dos Irmãos Karamazov seria a mesma sem o parricídio que dá sentido a trama. Dostoievski foi um mestre em fisgar o leitor com um crime para depois colocá-lo no meio de um turbilhão de idéias.

Essa também foi a tática dos autores góticos, essa foi a minha tática. Quis tomar o Drácula de Bram Stoker para falar da imortalidade, quis usar Reenfield como pretexto para homenagear meus autores prediletos e falar de literatura. Mas os editores e os críticos se apressaram em dar outra conotação ao meu primeiro livro. Mal leu as primeiras páginas, meu editor afirmou que era um bom romance policial, e tive de convencê-lo que a trama era apenas um pretexto, que aquele era um romance de idéias, e o triller servia apenas para fisgar o leitor e envolvê-lo nos temas recorrentes da literatura – a morte, o sexo, a imortalidade e para homenagear os grandes personagens da literatura gótica. Minha peroração não tocou o editor e, decidida a publicação, os originais foram remetidos ao artista que confeccionaria a capa. Mas a impressão equivocada do editor já havia sido transferida para o capista, que, influenciado pela leitura dos capítulos iniciais, fez a capa que marcou toda a história do livro. Eis a capa. A partir daí, todas as resenhas foram positivas, todas as criticas simpáticas, mas todas se referiam a um romance policial. Eu mesmo já estava convencido que minha intenção subconsciente fora escrever uma historia policial, quando, felizmente, o resenhista da Folha de S.Paulo veio resgatar a essência do livro, afirmando que a trama de suspense era apenas um recurso utilizado pelo autor para introduzir o verdadeiro tema do livro: a literatura.

E aqui os senhores já têm uma pista sobre o tema recorrente dos meus livros.

O tema do meu primeiro livro foi a literatura e, de certa forma, o mesmo tema se repetiu no meu livro seguinte: A Última Tentação de Marx. Durante vinte anos, mantive no jornal A Tarde a coluna Momento Econômico e logo percebi que economia e literatura podiam andar juntas. Antes, na faculdade, já havia percebido que economia e literatura tinham algo em comum. Quando li pela primeira vez o livro primeiro de O Capital, de Karl Marx, percebi que a mais devastadora crítica que o capitalismo já sofreu vinha recheada de citações literárias e de referências a escritores como Balzac e Shakespeare, a começar pela citação de Dante Alighieri – Segui il tuo corso, e lascia dir le genti! – com que Marx, já prevendo os preconceitos que sua obra iria engendrar, encerrava o prefácio da primeira edição. Esta descoberta veio fortalecer a idéia de que os conceitos econômicos não necessitavam da linguagem hermética e maçante usada pelos economistas. Descobri que era possível escrever sobre economia de forma agradável e coloquial, permitindo que os não-iniciados no famigerado economês, a linguagem cifrada dos economistas, pudessem ter acesso as idéias econômicas.

Na minha coluna semanal, eu procurava deshermetizar a economia, então resolvi publicar uma coletânea de crônicas sobre os pensadores da Ciência Econômica, que, longe de cultuar um hermetismo que inibia a expansão do conhecimento, tinham como objetivo principal entender o mundo econômico e transmitir esse conhecimento para um número cada vez maior de pessoas.

Esse livro, cuja pretensão era pequena, teve uma surpreendente acolhida pelo público e pela critica, mostrando que havia espaço para misturar literatura e economia. Hoje ele está na sétima edição. Foi adotado pelo programa Leia Mais do Governo do Estado de S.Paulo e continua sendo procurado. Mais uma vez eu fazia literatura, escrevendo sobre literatura.

Aliás, acho que, em tudo que fiz na vida, a literatura esteve sempre presente, até quando quis homenagear minhas duas filhas, que estão hoje aqui, e que foram as heroínas do meu único romance infantil “ A Menina Que Perdeu o Nariz.

Esse livro é uma nova homenagem dessa vez a um dos maiores escritores da literatura universal. Quando li pela primeira vez o conto O Nariz, de Nicolau Gogol, fiquei estarrecido. Se um autor podia fazer com a literatura o que ele fez tudo então era permitido. Kafka havia provado que não havia limites na literatura e, provavelmente, nenhum livro jamais escrito terá uma frase tão surpreendente como a que dá inicio ao seu A Metamorfose: Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara , em sua cama, numa espécie monstruosa de inseto.

Mas muito antes de Kafka, em 1836, um maravilhoso escritor russo, autor de Almas Mortas, havia escrito uma história tão incrível quanto aquela. Gogol conta a história de um barbeiro que acorda pela manhã e, ao tomar café, encontra dentro do pão um nariz. Isso mesmo, um nariz, que ele reconhece como sendo de um cliente da sua barbearia, um abastado burguês. De imediato, sua mulher acusa-o de assassinato e ele tenta livrar-se do nariz. Mas logo percebe que o dono do nariz também está atrás da protuberância. E assim segue a história. É um conto magistral, talvez o primeiro texto digno do rotulo de realismo fantástico, mas, acima de tudo, uma obra-prima do conto universal. A cena do nariz rezando na catedral de Karan é antológica, assim como o dialogo de Kolvalióv com seu próprio nariz.

Pois bem, novamente a literatura me dá o tema para uma história, dessa vez para crianças e com uma temática que estabelece uma relação de ambivalência com o publico infantil que entra em contato com temas da atualidade através da procura um motivo lógico que explique a fuga de um nariz do rosto de sua dona. E, graças a Gogol, esse motivo existe e é perfeitamente lógico e compreensível.

Quero, por último, falar sobre um livro que li durante toda a minha vida e que continuo lendo e que dá novas pistas sobre o tema recorrente dos meus livros. Trata-se da Bíblia, talvez o mais belo livro jamais escrito. Desde que li pela primeira vez os Evangelhos sinópticos, e descobri neles uma dimensão literária que jamais imaginei que pudessem ter, uma idéia martelou em minha cabeça. O enredo era maravilhoso, tanto que sobrevivia há mais de dois mil anos como a história mais contada da humanidade, mas a perspectiva da história me parecia excessivamente masculina, embora o personagem principal fosse explicitamente feminista.

Aliás, no Antigo Testamento também era assim, as mulheres sempre apareciam desbotadas, em segundo plano. Mas era possível ler a Bíblia com uma perspectiva mais feminina. O Gênesis, por exemplo, louvava um Adão passivo e obediente, mas era possível identificar uma Eva inquieta e revolucionaria, que nos deu o desejo do conhecimento e a coragem de enfrentar Deus. Essa Eva questionadora nem parece ter os gens da costela de Adão. Aliás, outros textos não canônicos dizem que Eva não foi a primeira mulher, antes dela, homem e mulher foram tirados do mesmo barro, mas Lilith, a fêmea que daí resultou, desagradou a Deus e a Adão, pois, cheia de sangue, saliva e desejo, igualava-se a ambos. Lilith foi então expulsa do paraíso e relegada a convivência com os demônios. Só então o Senhor, maldizendo o barro, tirou da costela de Adão uma nova fêmea, sem saber que, à semelhança de Lilith, Eva também chegaria cheia de sangue, saliva e sede de conhecimento. A liberdade é o destino das mulheres, mesmo ainda que elas saiam das nossas costelas.

Não só Eva e Lilith, mas também Séfora, esposa de Moisés, teve sua história desbotada no antigo testamento, mas foi ela a verdadeira heroína do povo judeu. Não fosse ela, talvez o povo eleito ainda habitasse o Egito, sem líder que o conduzisse a Terra Prometida. A história conta que Deus era dado a rompantes sanguinários e durante a viagem ao Egito resolveu matar Moisés por este não haver circuncidado seu primogênito. E é Séfora que vai salvá-lo da ira de Deus. Frente ao ataque do Senhor, Séfora arma-se de uma faca de pedra e com ela corta o prepúcio do filho, contendo a cólera de Jeová.

Mas se nos primeiros livros do Antigo Testamento ainda aparecem mulheres poderosas, gradualmente, elas vão se esmaecendo e começa a aparecer leis para controlá-las. No Levítico, cria-se um horroroso e retrógrado código de disciplina que determina o que é puro e impuro. Nesse estranho código, a mulher que da à luz é considerada impura por sete dias e ficará em casa por trinta e três dias, purificando-se do sangue. Isso se for menino o fruto do seu ventre, se menina for ficará impura por duas semanas e em prisão domiciliar por sessenta e seis dias.

“ A liberdade indócil é domada pela desgraça “ assim diz Shakespeare. E a desgraça das mulheres virá através da lei deuteronômica, que compõe o último dos cinco livros do Pentateuco, e pelos códigos de disciplina dispersos por toda a Escritura. Assim, a lei vai obrigar a viúva a casar-se com o irmão do seu marido, vai condenar a adúltera a ser lapidada e vai permitir o julgamento por ordálio em que o Senhor permite o uso do Seu nome numa oblação de ciúme em o que o marido, tomado de zelos, impõe a mulher a farsa do Juízo de Deus. O levirato, a lapidação, o ordálio e muitas outras leis conformarão um código que subjugará a mulher, na tentativa de subordiná-la ao homem e a Deus.

O mais surpreendente é que nos quatro evangelhos sinópticos aparece a mesma misóginia do Antigo Testamento, embora Jesus, o personagem principal da história, fosse um apaixonado defensor das mulheres. Jesus é um profeta diferente, que impede a lapidação da adúltera, que se deixa tocar pela mulher menstruada, que permite a prostituta lavar seus pés, que se faz acompanhar de mulheres por toda a parte. Ora, como é possível que na história desse profeta feminista as mulheres quase não apareçam e estejam sempre em segundo plano.

Os evangelhistas, todos homens, descoloriram o papel das mulheres e os escritores que os seguiram, e foram muitos, continuaram contando a história sob a ótica masculina. Por isso, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, resolvi tornar-me um evangelista, não para doutrinar, mas para fazer literatura. E escrevi O Evangelho Segundo Maria dando a palavra às mulheres. Maria, mãe de Jesus e Maria de Magdala contam a história de Jesus, mas todas as mulheres que o seguiram: Maria de Cleófas, Suzana, Joana de Cuza, Alcione e muitas outras, aparecem revigoradas no papel de discípulas do Mestre, como aliás advoga cheia de provas a teóloga italiana, Elizabete Fiorenza.

Ao dar as mulheres o papel principal na saga de Jesus, minha intenção foi realçar que as mulheres, diferente dos homens, estão sempre presentes no nascimento e na morte. Mas foi também fazer literatura, pois faltava heroínas na história de Jesus. E nos grande livros da literatura universal as heroínas sempre pontificaram. Foi Beatriz que fez Dante descer aos infernos, foi Margarida que se tornou a salvação do Fausto, foi Capitu, que fez de Bentinho um poço de ciúmes. E isso para não falar de Ema Bovary, símbolo da mulher que se rebelou contra a submissão pequeno burguesa e encontrou, primeiro no adultério depois no arsênico, o caminho da libertação; ou da senhorita de La Mole, que junto com Madame de Rênal disputou o amor e a cabeça guilhotinada de Julien Sorel, ou de Diadorim que fez Riobaldo amá-la mesmo vendo nela um homem. Flaubert, Stendhal, Guimarães Rosa e muitos outros haviam feito da mulher a protagonista de suas história, no entanto, na mais bela história já escrita, a imagem das mulheres, presentes nas palavras e gestos do principal personagem, esmaecia-se.

E foi isso, mais do que qualquer coisa, que me fez escrever um evangelho cuja heroína Maria de Magdala assume seu protagonismo, fazendo de Jesus um herói mais humano.

Agora, os senhores já podem perceber a origem da temática dos meus livros. Eu escrevo sobre livros. Meu tema recorrente é, e sempre será, a própria literatura, pois eu conheci a vida através dos livros e só através deles poderei dizer o que penso dela.
Muito Obrigado

Palestra proferida na Fundação Jorge Amado, no âmbito do Projeto Com a Palavra o Escritor. Salvador, 30 de março de 2005.

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