(conto inédito

(palestras e conferências)

O encontro

Ela pegou o telefone e disse: “venha”. Ele não disse nada, pôs o aparelho no gancho, levantou-se, olhou a secretária, disse que voltava logo. Ela esperava ansiosa, cruzou e descruzou as pernas várias vezes, estava nervosa, alguma coisa não ia bem. Tentou disfarçar a apreensão, levantou-se, acendeu um cigarro. Ele entrou, calmo como sempre, um pouco calmo demais, pensou ela, uma calma excessivamente planejada, pôr isso falsa. Ela sorriu sem esconder o ar pesaroso, não foi possível evitar a interrogação: ”O que há?”. Não há nada, pensou ele, mas isso não é resposta que se dê a alguém que espera algo. É importante existir algum tipo de constrangimento, algum medo, senão tudo fica insuportavelmente maquinal. Ela, pelo contrário, acredita em uma ordem pré determinada, só nessa ordem é possível encontrar plenitude em qualquer coisa, especialmente no amor. Desanuvia o cérebro, convencida de que aquele momento é predestinado.

Abraça-lhe, roçando a nuca com a mão esquerda, procura seus lábios de leve, começa a mordê-lo com ânsia, uma ânsia descontrolada, quase hostil, vinda não sabe de onde. Talvez saiba: vem das profundezas de quem se sabe frágil, do íntimo de quem antevê o fim. E daí? Que importa o fim? Nada, ninguém dele escapa. Melhor contentar-se com o agora.

Ele enlaçou-lhe a cintura, puxou-a de encontro a si, o calor invadiu seu corpo. Deixa-se dominar pela sensação agradável, tudo o mais esvanece. Desliza a mão esquerda sobre o corpo liso, aperta-lhe o peito. Ela estremece, um tremor languido antecede a entrega total. A mão áspera é suave quando lhe toca o peito. Desabotoa a blusa quase sem perceber, estremece novamente quando ele põe a mão entre suas pernas. Não pensa em nada, a sensação de ser possuída, de entregar-se totalmente, tolamente, preenche todos os espaços.

Ela ainda delira flutuando no vácuo do prazer, ele já é todo racional. O sexo é maravilhoso, pleno, realizador, mas absurdamente rápido. É o clímax e a queda imediata. É alcançar a glória e não desfrutá-la. Está nessa efemeridade a diferença entre o prazer físico e o prazer intelectual. Este é duradouro mas confuso, indeciso, nem se sabe prazer. Aquele é pleno, seguro, imediato e claro, mas fugaz. Traz em si a frustração do próprio prazer. Ela não pensa assim, o abandono, a lassidão era a continuidade do prazer. O desejo de acariciar, a lerdeza no corpo, o formigamento leve, delicioso, não havia dúvida: o amor era mais belo nas mulheres.

Ela não podia escapar dos pensamentos. Uma carga de tristeza, uma melancolia aguda, superava a plenitude da saciedade. A melancolia vinha dele, do seu silêncio, da falta absoluta de gesto ou palavra. O amar nos homens era vazio, era apenas a vontade de desvencilhar-se de algo, tão logo conseguiam, voltava-lhes a existência fria, o cotidiano linear. Neles não havia a entrega total que transcende o prazer.

Ele pensou em tirá-la daquele torpor, em inventar um medo, um perigo, qualquer coisa que a trouxesse de volta. Uma preocupação que a tirasse do devaneio, a fizesse voltar ao seu domínio, alguma coisa que novamente a aprisionasse a ele. “Ele pode chegar a qualquer momento”. Ela abriu os olhos, uma chama de indignação perpassou a película verde. Pôr que fazer aquilo? Para que trazê-la bruscamente ao mundo real? Intuía desamor, não podia compreender porque ele estava ali, pôr que tinha vindo? Percebeu desde cedo a distância, a reserva sutil. Pôr isso lhe perguntou o que se passava. Ele nunca respondia às suas perguntas, tergiversava, nunca admitia estar nele a origem da tristeza dela. Era nítida sua fragilidade, ele a escondia sob o manto da racionalidade. Sabia do fim próximo, não decidia nada, nunca acabava nada, esperava a exaustão espontânea, a indiferença ou o acaso agiam pôr ele. Jogava de modo duplo, afastava, atraía, era cruel. Para ele tudo estava no lugar, o casamento inexpugnável, sagrado. Nenhuma paixão, apenas a segurança do lar, inatingível. “ Isso eu não discuto, também não lhe engano”. Cômodo, muito cômodo. Ama quando as circunstâncias lhe favorecem, depois o conforto burguês de uma família comum. Ela não, arriscava tudo em busca do amor ou de algo que se parecesse a isso. Ela era quem arriscava destruir sua vida, sempre pronta a chamá-lo, a ir ao seu encontro. Ele se preservava, um cuidado exagerado, egoísta, o egoísmo de quem não ama. E agora esse alerta inoportuno: “Ele pode chegar a qualquer momento”. Não havia preocupação em sua voz, nem medo, era apenas uma forma de acabar o encontro, um ardil para levá-lo de volta as suas obrigações. Talvez ela também fosse uma obrigação.

O silêncio deixou- lhe desconcertado. Ele sabia que estava sendo julgado por aqueles olhos. Nada podia fazer, nada mais lhe prendia ali, tinha ido pôr gosto agora acabou, era preciso voltar ao mundo. Gostava dela, carinho sincero, que mais podia dar? Amor? Não amava ninguém, nunca amou ninguém a não ser momentaneamente, se é que a isso se pode chamar de amor. O amor era uma invenção da humana. O homem criou o amor, assim como criou Deus. Ambos obedecem ao objetivo pré-determinado de preservar a espécie humana, mas não existem. Não há amor, há desejo e este é momentâneo. O que atrai as pessoas é o desejo sexual. O amor foi criado para aureolar de razão este instinto físico, puramente físico. Admitir que homem e mulher se atraíssem apenas de forma carnal, era aceitar a irracionalidade, a animalidade no único ser racional. Amor? O homem esforça-se para manter seus sentimentos nos limites da normalidade, de repente tudo explode e ele se mostra tal como é, animal no cio, em busca da fêmea. E nas mulheres, não era igual? Sim , também nas mulheres era sexo, não o amor. “Ficais sabendo que, quando uma mulher forma um projeto, não há marido nem amante que consiga impedir sua execução”. Os árabes tinham razão, ela era a prova viva daquela sabedoria. Era preciso ir, apesar da mágoa, era preciso ir. “Ele pode chegar a qualquer momento”.

Que importa que chegue, pensou sem nada dizer. Talvez fosse bom resolver isso de uma vez pôr todas. Ele não temia pôr ela, temia pela segurança burguesa que ela, já há muito, tinha jogado para o ar. Pensar que ele havia lutado para conquistá-la, ostentando-a tal um troféu, agora sem importância. Ela havia tramado tudo desde o início, ele apenas seguiu o caminho traçado. Decidiu tornar-se sua amante, naquela noite fez-se difícil, com arte e encanto, sempre uma possibilidade no ar. A primeira noite, quase perfeita, o orgulho da conquista brilhando em seu sorriso. Durou pouco, ele não amou de maneira completa, excitação de menino. Depois mostrou-se pleno, entregou-se totalmente, desajeitadamente, um carinho insuspeitável em um homem. Foi terno e grato, não como agora. Seu único objetivo era terminar tudo da maneira menos dolorosa, sem problemas para a sua segurança doméstica.

Impacienta-se com a demora, levanta-se, diz que vai embora. Começa a ensaiar uma desculpa, ouve o ruído do automóvel na garagem. Não é possível, um antigo medo lhe toma a face. Paralisado, ouve a movimentação no jardim, o trinco da porta, em seu cérebro a imagem do escândalo, nítida. Não pensava que ele viesse assim, de repente, dava o alerta sem convicção, apenas como desculpa para livrar-se dela, não imaginava ele em casa aquela hora da tarde. Era um idiota, agora compreendia. Ela havia tramado tudo, pôr isso se mantinha calada, um plano para envolvê-lo definitivamente, forçar uma situação, obrigá-lo a tomar uma posição. Ela planejou o encontro, o escândalo, inevitável, sua mulher, desesperada, o caminho livre. Era insensato, arriscado, deixar a situação no limite? O desfecho imprevisível. As mulheres quando querem algo não medem as conseqüências, são capazes de tudo. Ela não conseguirá, que importa a carreira, o casamento, ela não terá o que deseja. Meu Deus! Não há mais tempo, os passo na escada.

Ela estava aturdida. Não sabia porque ele resolveu voltar aquela hora da tarde. Sempre voltava a noite, muito tarde. Desconfiou de algo, anda arredio, irritado, indagando lugar, horário. Alguém pode ter contado a ele. Meu Deus! Onde chegará tudo isso?

Assustado, ele viu a porta abrir, percebeu a arma. Tentou correr antes que as balas, uma atrás da outra, lhe perfurassem o corpo.

Ela viu o corpo cair, ensangüentado. Lágrimas reverdeceram, quando um movimento imperceptível deu o sinal que ali estava um cadáver. Ficou paralisada, tremia convulsivamente, esperava. Seu corpo alvo, nu, era belo, constratava com o sangue no tapete. O revólver apontava para ela, a mão tremia muito. O instinto a dominou, percebeu que assumia novamente o controle. Desconsolada, levantou-se, foi ao encontro dele. A nudez alva e sensual ocupou os espaços. Um gesto da mão fez a arma tremer, ela não vacilou.

Não havia mais medo quando sensualmente encostou seu corpo ao dele e entregou-se num beijo violento.

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