(conto inédito

(palestras e conferências)

A vingança da prostituta japonesa

Tinha horror a sangue. Não sabia a origem do pavor, o certo é que a visão de sangue humano ou de objetos cortantes em contato com a carne o faziam arrepiar. Isso vinha desde a infância, ele nunca conseguiu explicar a origem ou o porquê daquela fobia, sabia apenas que detestava as armas brancas e seu corpo padecia de uma estranha sensação quando via ou imaginava a carne humana sendo cortada pôr uma lâmina.

Certa vez no colégio ficou desesperado ao saber que uma colega de turma havia tentado suicídio. O desespero não era tanto pelo ato em si mas pela forma como fora praticado. Ela cortara os pulsos. A simples menção desse fato provocava reações de náusea e uma estranha apoplexia o dominava. Quando, recuperada, a jovem suicida retornou às aulas, era-lhe impossível cumprimentá-la pelo medo angustiante que sentia apenas com a perspectiva de ver e tocar a cicatriz no pulso.

Definitivamente não gostava de ver sangue, a imagem de uma operação cirúrgica no aparelho de televisão - reportagem que parecia ter grande audiência pelas vezes que se repetia - o obrigava imediatamente a fechar os olhos. Evitava os filme violentos, não qualquer um, unicamente aqueles em que a violência era explícita e sanguinária.

Todas essas cenas conseguiam impor ao seu corpo tal sensação de desconforto que ele, premeditadamente, as evitava, embora em momentos de autodeterminação tentasse impor-se aquelas imagens, imbuído da certeza de que com o tempo se acostumaria. Era inútil, cada exercício desse tinha um efeito recessivo que aguçava ainda mais o seu temor.

Não que a fobia lhe causasse transtornos maiores, afinal, com exceção da imperiosa necessidade de fechar os olhos ante uma cena de sangue ou da incontrolável vontade de fugir quando se deparava com um atropelamento, vivia uma vida normal, não possuía qualquer sintoma ou característica patológica. Achava que possuía um medo semelhante ao daquelas pessoas que não podem ficar em lugares fechados ou que têm medo de altura e que em algum momento haveria de descobrir a origem de tal fenômeno.

Tentou buscar uma explicação a esse estranho pavor nos tratados de psicanálise. Recorreu a Freud, convenceu-se que seu problema tinha origem nas experiências sexuais da infância e passou a buscar nos escaninhos da memória algo que lhe desvendasse o enigma.

Depois de muito molestar seus neurônios e de relembrar coisas que preferia que continuassem esquecidas, chegou a conclusão que podia haver algo de sexual no seu medo patológico, mas a única recordação que pode resgatar, com alguma relação a sua fobia, foi uma lembrança, mista de excitação e medo, de pavor e riso, que não tinha a força de um trauma.

Fazia o curso ginasial em Salvador. O ginásio ficava no topo da ladeira de São Bento, no centro da cidade, numa praça congestionada de gente, onde reinava majestoso, em milhares de metros quadrados, o convento dos padres beneditos.

Em frente ao convento, descendo a ladeira de São Bento, estava a Praça Castro Alves e, logo acima, a Avenida Sete se bifurcava na Rua da Ajuda e, na outrora famosa, Rua Chile. No fundo da praça, atrás do convento, havia duas ou três ruelas estreitas, esburacadas e íngremes que desembocavam no Largo da Barroquinha. Era no meio de uma dessas vielas que se erguia imponente um sobrado colonial, meio arruinado, pintado de cores berrantes. A imaginação ginasiana escolheu aquela casa como o móvel de suas paixões e a descoberta, logo confirmada, de que ali funcionava um bordel aguçou a curiosidade dos adolescentes. Oscilando entre o medo e a excitação, os garotos ficavam horas debaixo da grande amendoeira que havia no fundo da praça observando o contínuo entra e sai vespertino dos freqüentadores do sobrado e atiçando o espírito com estórias, geralmente inverossímeis, sobre as personagens daquele paraíso do desejo.

Corria entre os garotos a versão fidedigna de que as mulheres da casa eram, na sua maioria, estrangeiras de meia- idade, vindas da Suécia e da França e que nas horas vagas tinham como passatempo iniciar os jovens nos prazeres do amor. Outros asseguravam que, nas horas quentes da tarde, o sobrado recebia universitárias e colegiais das melhores famílias da cidade que vinham, não em busca de dinheiro, mas para saciar seus desejos reprimidos. Eram muitos os casos que se contavam sobre aquele misterioso sobrado. Uma dessas histórias latejava em sua memória e, se Freud estava certo, podia estar ali a origem da sua aversão aos objetos de corte.

Contava-se que certa feita um homem, alto, louro e com estranho sotaque, começou a freqüentar assiduamente o sobrado. Dizia-se um aristocrata, que havia deixado sua terra pelo gosto da aventura e que agora caminhava pelo planeta em busca de uma mulher que o enfeitiçasse. No dia em que encontrasse tal mulher a levaria com ele para o outro lado do mundo, onde era possuidor de grande fortuna. Estava, agora mesmo, à espera de um grande lote de mercadorias de alto valor que, depois de comercializadas, permitiria que ele alugasse o bordel pôr um fim de semana inteiro. Semanas depois, o forasteiro arrendou o puteiro com tudo o que nele havia, inclusive as mulheres. O preço acertado foi mais que suficiente para cobrir tudo o que “as meninas” pudessem arrecadar.

Pôr vários dias, o marinheiro reinou tal um vizir, tendo aos seus pés todas as damas da casa e oferecendo aos seus amigos um banquete em que eram servidas as mais belas e apetitosas mulheres que um mortal poderia desejar.

Como era de se esperar, houve uma dessas mulheres que se tornou a favorita do alegre esbanjador. Era uma japonesa de pouco mais de 20 anos que, diziam os especialistas, fazia os homens delirarem de tanto prazer pois, diferentemente das outras, seu sexo não se posicionava verticalmente entre as pernas, tinha uma leve inclinação que quase o tornava oblíquo e, pôr causa disso, seus parceiros alcançavam um gozo indescritível. Com ela passou a maior parte do tempo e o que estava programado para três dias durou toda a semana e transformou-se numa extravagante orgia, em que se consumiu toda a bebida e toda comida do lugar.

Ao amanhecer do sétimo dia, a dona do bordel, que já vinha insistindo com o forasteiro sobre a necessidade de dinheiro para repor os estoques e pagar os compromissos, foi surpreendida com o seu inesperado desaparecimento. Ninguém sabia onde ele estava, ou quando tinha ido embora. A cafetina compreendeu a puta sacanagem, bufando de raiva jurou vingança.

Mas tudo ficaria pôr isso mesmo não fosse o encantamento que a misteriosa gueixa provocou no marinheiro. Nada no mundo o impediria de voltar a trepar com a japonesinha. Furtivamente, com a audácia dos apaixonados, voltou certo dia ao velho sobrado e implorou um último encontro para que pudesse gravar definitivamente na memória aquela sensação inimaginável que não havia encontrado em porto algum do mundo. Ela concordou, e marcou o encontro para a noite seguinte. Era chegado o momento da vingança. Na hora marcada, a bela gueixa colocou uma gilete na linda xoxota oblíqua e esperou no quarto escuro pelo forasteiro alucinado de paixão.

Nesta noite, os médicos do pronto- socorro não puderam esconder o espanto com o surpreendente caso de um marinheiro holandês que tivera o pênis retalhado pôr uma puta da ladeira da Barroquinha.

A recordação daquela história, e do seu final anatomicamente improvável, longe de solucionar o seu pavor pôr objeto cortantes, agregou ao seu perfil psicológico duas novas fobias, que o acompanharam pelo resto da vida. A partir de então, teve o maior respeito para com os honorários a que faziam jus as prostitutas e nunca mais conseguiu ver uma japonesa sem pensar nos incomensuráveis prazeres que ela guardava, obliquamente, no meio das pernas.

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